O leiteiro deixou o leite na porta. O carteiro passou de bicicleta. O marido abriu o jornal. A faca insistia na manteiga dura. No meio da mesa, dentro da garrafa de vidro, havia um barco à vela. E o vento estava favorável. A embarcação fluía. Toda a maresia do mar melava a pele queimada de sol a pino. Horizonte, horizonte, para onde vais? Um círculo de horizonte a envolvia. O barco seguia. Mas ela não chegava até detrás do horizonte. O horizonte é que os espremia, ela e a embarcação, gradativamente. O espaço ficava menor. O sol no meio do círculo. Uma andorinha raspou-lhe a cabeça. Mas é verão:
- Mãe, depois você me ajuda a arrumar meu armário?
25/10/2009
07/10/2009
Lume
Meia - noite. Hoje já é amanhã. Mas se fosse ontem também pouco importaria. Importa é que você aparece de novo. Hora da meia–noite. Se houvesse uma igreja aqui perto, os sinos tocariam. Ou lobisomens surgiriam. Ou Cinderelas cairiam. Ou, ou, ou. É de novo você. Por todas as meia–noites sempre permanece. Reaparece. Envelhece a dúvida. Rejuvenesce. Porque a noite já não é mais meia. Os lençóis já não são ásperos. Eu já não sou como antes da noite e meia em que meus olhos se fecharam para abrir cegos. Porque a noite é inteira. Tudo escuro. E eu andando no escuro sei andar. Quase não esbarro. E ando. Mais um pouco. Até que a luz invade minhas retinas e o escuro adquire matizes e eu, deslumbrada, com palavras, tento repetir o que sinto ao abraçar quem eu amo na noite escura.
26/08/2009
Século vinte e um
A sala está vazia. No canto, restos de coloridas e murchas bolas de soprar enfeitam o chão. O aparelho de som toca qualquer música para ninguém. As luzes verdes e vermelhas ainda estão acesas. A menina acorda, com medo de escuro. Procura o tio, encarregado de cuidar da sobrinha. Mas encontra apenas o resto de festa, o fim de festa, a ausência de festa. A abstinência após o uso da droga, o silêncio após o barulho, a solidão após o amor. O tio está embriagado no sofá, a dormir tão apagado que sequer sonha. A menina sente mais medo então daquele escuro colorido, daquele escuro fingidor, que não é breu nem é claridade. E respira o ar da festa, com vestígios daquele tempo irrecuperável, que nem sabe qual foi, que nem sabe se alegre foi. Mas sente saudade mesmo assim, porque o que tem é apenas a dúvida entre o escuro e os restos do que não é seu. Parada na porta que liga o corredor à sala, ela sente um pouco mais de medo. Boceja e arrasta os pés para o quarto. Lá, busca uma solução e dorme de luz acesa.
07/08/2009
Roda-viva
Havia sido criada para rodar saias. E girava e girava. Desde que aprendera a andar, girava. Crescia, e os panos da saia precisavam ser maiores. E maiores. Os cabelos cacheavam mais, pegavam volume. Cabelos também giravam em seus cachos. E girava, rodava na ciranda. A chita enfeitiçava os olhos da multidão que se aglomerava para vê-la rodar. E ela rodava, como brinquedo de criança. Rodava, com pés abençoados.
Com o mundo sempre a girar, ela ouvia os barulhos das moedas caindo. E ficava motivada a girar mais. Nem ficava tonta: acostumara-se a viver sob vertigem. Nada no seu mundo permanecia no seu lugar. Mas ela não parava de girar.
Um dia, a flor que ficava em seu cabelo caiu. E ela bruscamente interrompeu seus movimentos e parou. Quase também caiu. Cambaleou. E se segurou no chão. A mão, por isso e acostumada aos ares, se arranhou no que era áspero. Machucado, um canto de unha começou a sangrar. Sangue vermelho, da cor da saia, do batom, da flor.
Pisaram na flor, as lágrimas mancharam o batom, a saia se sujou no chão empoeirado. E ela caiu no chão. Deitada.
Com as faces avermelhadas de vergonha, foi que ela imaginou o chão vermelho. E, como em um tapete, ainda com o corpo esticado, ela rodou. Novamente.
Com o mundo sempre a girar, ela ouvia os barulhos das moedas caindo. E ficava motivada a girar mais. Nem ficava tonta: acostumara-se a viver sob vertigem. Nada no seu mundo permanecia no seu lugar. Mas ela não parava de girar.
Um dia, a flor que ficava em seu cabelo caiu. E ela bruscamente interrompeu seus movimentos e parou. Quase também caiu. Cambaleou. E se segurou no chão. A mão, por isso e acostumada aos ares, se arranhou no que era áspero. Machucado, um canto de unha começou a sangrar. Sangue vermelho, da cor da saia, do batom, da flor.
Pisaram na flor, as lágrimas mancharam o batom, a saia se sujou no chão empoeirado. E ela caiu no chão. Deitada.
Com as faces avermelhadas de vergonha, foi que ela imaginou o chão vermelho. E, como em um tapete, ainda com o corpo esticado, ela rodou. Novamente.
21/07/2009
Segredos
O menino tinha insônia. Os pais não sabiam. Ele gostava de ter a noite só pra ele. Subia no banquinho e abria devagar a janela cujas dobradiças rangiam e explorava o céu. Às vezes alguns transeuntes perdidos, com passos sem direção, surgiam e ele espiava. Espiava também toda a casa. Visitava cada cômodo, com meias nos pés para evitar ruídos. Mas apenas em um aposento não ousava entrar: aquele em que seus pais dormiam. Não queria incomodar, mas ao mesmo tempo queria vê-los dormir, queria imaginar seus sonhos de acordo com a expressão que seus rostos tivessem. Queria abraçá-los sem que eles percebessem e ajeitar suas cobertas. No entanto, toda a noite, eles trancavam a porta e as vontades do garoto sempre se frustravam.
Certa noite, contudo, ao dirigir-se ao banheiro, reparou na porta entreaberta. Finalmente haviam esquecido! Poderia entrar e reparar, e brincar, e sonhar, e quase pularia de tanta alegria. Com passos curtos e respiração silenciosa, caminhou até a porta e empurrou-a levemente. A luz do corredor pôde iluminar sutilmente a penumbra do quarto. Mas o menino não entrou. Permaneceu imóvel, sem reação, com as pequenas mãos a suar e as lágrimas a molharem as bochechas, quando viu seu pai em um pequeno e desconfortável colchão no piso gelado enquanto a mãe, sozinha, ocupava a metade da incompleta e confortável cama de casal.
Certa noite, contudo, ao dirigir-se ao banheiro, reparou na porta entreaberta. Finalmente haviam esquecido! Poderia entrar e reparar, e brincar, e sonhar, e quase pularia de tanta alegria. Com passos curtos e respiração silenciosa, caminhou até a porta e empurrou-a levemente. A luz do corredor pôde iluminar sutilmente a penumbra do quarto. Mas o menino não entrou. Permaneceu imóvel, sem reação, com as pequenas mãos a suar e as lágrimas a molharem as bochechas, quando viu seu pai em um pequeno e desconfortável colchão no piso gelado enquanto a mãe, sozinha, ocupava a metade da incompleta e confortável cama de casal.
06/07/2009
Ela e o tempo
O moço da banca agora era seu neto. A padaria mudou de dono. Os pontos de ônibus ficaram cobertos e com assentos. Os uniformes das crianças múltiplos e de diversas cores. E outro cemitério fora construído. A cidade cresceu. Sinal de que ela também.
Mas não adiantava pra ela retornar. Nada significava aquele lugar. O vestido amarrotado da noite passada, o cheiro de ontem e as meias grandes nos pés é que explicavam o sorriso incansável.
Mal sabiam eles que o motivo era outro. Afinal, de que adianta escrever em maiúscula? Tem coisas que só a gente percebe.
Olhou então o céu também crescido: a gralha tem mania de gritar. Ela, por sua vez, murmurou uma melodia inventada
Mas não adiantava pra ela retornar. Nada significava aquele lugar. O vestido amarrotado da noite passada, o cheiro de ontem e as meias grandes nos pés é que explicavam o sorriso incansável.
Mal sabiam eles que o motivo era outro. Afinal, de que adianta escrever em maiúscula? Tem coisas que só a gente percebe.
Olhou então o céu também crescido: a gralha tem mania de gritar. Ela, por sua vez, murmurou uma melodia inventada
01/07/2009
Sem ar
Corro o corredor comprido que não finda. Sem janela. Com parede.
O neném nasce,o peito cresce, a mãe morre, o emprego massifica,
o namorado briga, o filho chora, o pai sente ciúmes, a mãe reclama,
a comida queima. Com o calor das lâmpadas e com o calor que sufoca.
A responsabilidade, a idade, o peso. Corro mais e mais, com pressa.
Avisto a janela e corro. Chego e levanto o vidro, debruço-me. O ar leve,
o ar, enfim. Respiro, amanso, descanso. O ar é leve e esqueço-me.
Respiro fundo, fatigada. E mergulho nas pálpebras molhadas dos meus
olhos ainda contraídos.
O neném nasce,o peito cresce, a mãe morre, o emprego massifica,
o namorado briga, o filho chora, o pai sente ciúmes, a mãe reclama,
a comida queima. Com o calor das lâmpadas e com o calor que sufoca.
A responsabilidade, a idade, o peso. Corro mais e mais, com pressa.
Avisto a janela e corro. Chego e levanto o vidro, debruço-me. O ar leve,
o ar, enfim. Respiro, amanso, descanso. O ar é leve e esqueço-me.
Respiro fundo, fatigada. E mergulho nas pálpebras molhadas dos meus
olhos ainda contraídos.
10/06/2009
Pedaços
Vou catando caco de vidro nessa tarde de domingo. Cacos grandes e pequenos. Os pequeninos sangram meu dedo, que ficam arroxeados. Vou catando cacos nessa tarde de domingo. Vou cantando cacos, pedaços de músicas, pois não sei direito a letra. Vou de capuz e cesta no braço. O capuz é limpo. A cesta está cheia. O chão cheio de cacos. Vou pensando cacos, pois nada se completa. Vou soprando cacos, com a respiração forçada e intensa. Vou beijando cacos, dançando cacos, olhando cacos, alisando cacos, comendo cacos. Nessa tarde de domingo, meus pés estão descalços.
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